Entre anjos e bestas feras

10 out

Segundo o sabio Sócrates, o caminho da sabedoria passa pelo auto-conhecimento. “Conhece-te a ti mesmo”, reza o axioma. Contudo, nenhuma outra tarefa pode ser mais difícil que esta. Quem sou eu?

Crê Marx que sou um conjunto de sensações e uma mente individual. Para Goethe sou uma criatura sombria que não sabe de onde vem, nem para onde vai. Em Vitor Hugo, sou um fantasma errante, que passa pelo mundo e não deixa sequer uma sombra no muro.

Mas quem sou eu? Sou a encarnação da imperfeição, cuja essência foi deturpada, começando uma metamorfose de lagrimas a dançar com a morte. Sou um ser caído a depender a cada dia da graça de Deus; alguém que ora e crê com toda a sua foça na eficácia dessa graça, pois é ela a minha única esperança de salvação. Sou ainda infiel, mas Ele permanece fiel!

Definitivamente não sou bom. E para ser honesto, nem quero ser. Tenho medo dessa falsa bondade pseudo-religiosa que faz com que os homens vejam os outros como seus inferiores, ao ponto de desprezar àqueles com quem Cristo compartilhava suas refeições e seus momentos alegres, debaixo da escusa de não se contaminarem. Não, senhores: Essa bondade eu desprezo! Cubram-se outros com esse manto de hipocrisia. Prefiro dar a conhecer a minha natureza humana, e em minha humanidade e imperfeição aguardar a suprema redenção que me trará Cristo.

Blaise Pascal disse que “o homem não é anjo e nem animal”, e que “aqueles que pretendem ser anjos, acabam se convertendo em animais”. Eu não sou anjo! No máximo um de asas desplumadas e auréolas tortas. E se você quer saber, o pseudo-protestantismo brasileiro está assim decadente, porque os homens um dia quiseram ser anjos. Eles quiseram ser deuses, e se converteram em animais. Deus me livre de ser tão santo, ou tão puro. Deus me livre de ser um anjo. Prefiro ser um homem que depende totalmente da justiça de Deus.

Disse Soren Kierkgaard: “O homem nasce e vive em pecado, nada podendo fazer a seu próprio favor, a não ser prejudicar-se”. Sim, esse sou eu! Tão sujo que posso reconhecer o valor do sangue de Cristo para lavar-me; tão pecador que sei que nada posso fazer para salvar-me; tão morto que não tive forças para gritar e pedir por auxílio; e tão perdido que sou capaz de devolver gratidão ao Deus que me achou.

E mesmo após ser conquistado e vencido pela graça, não posso arrogar perfeição: pois essa mesma graça me faz enxergar com mais luz o meu pecado e o intransponível abismo entre eu e o meu Salvador. Há apenas uma coisa que é capaz de ligar extremos como o céu e terra, o santo e o profano, meu Senhor e eu: A cruz de Cristo. É ela a única esperança que me resta, a minha sorte e porção no mundo, e a única fonte capaz de regenerar minha natureza humana.

3 Respostas to “Entre anjos e bestas feras”

  1. Anderson Paiva outubro 12, 2009 às 1:32 am #

    Parabéns pela iniciativa, Leonardo. Em paralelo à apologética e à teologia, o tema da espiritualidade é sempre uma sombra e um refresco bem-vindos. Faz bem para o espírito (do escritor e dos leitores) o derramar-se da alma e expressar em palavras os paradoxos da doce graça incompreendida, que traduzem o eterno e emocionante diálogo entre o Amante e o amado, com todos os seus assombros, maravilhas, escuridão, fracassos e decepções.

    O estar de auréolas tortas (como diz Brennan Manning) é o real estado de nossa condição, santos hipócritas, pecadores salvos, rebeldes arrependidos e redimidos. Como diz João da Cruz: os momentos de escuridão são o caminho. Espero que esses momentos nos ajudem a chegar no patamar de santidade não-hipócrita e humilde em que chegaram aqueles que diziam, como o carmelita: “No fim de nossas vidas seremos julgados pelo amor.”

    Um grande abraço,
    Anderson Paiva

  2. takeshi novembro 1, 2009 às 9:09 pm #

    bacana eu to post, foi tu mesmo q escreveu!?
    parabéns, vou divulgar este blog

  3. Márcio Mendonça janeiro 21, 2010 às 3:54 pm #

    Ótima reflexão! Parabéns! Que o Senhor Deus continue te abençoando.

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