O velho homem é uma roupa…

12 out

O velho homem é uma roupa. É uma roupa velha e encardida, rota pelo uso e que apesar de cobrir a vergonha, de tão velha e fora de moda, já não se pode usar [1]. Estar vestido do velho homem significa estar vestido desta roupa de justiça própria, revestido de uma religião piegas, que apesar de ter alguma aparência de santidade, não pode combater a carne [2], e está fadada ao fracasso.

Permanecer vestido de velho homem é estar ainda buscando subterfúgios que possam esconder a nossa vergonha e escândalo [3]. É ancorar-se no Sinai e fechar os olhos para a teofania do Monte Tabor. É ainda a rejeição voluntária e obstinada das vestes mais excelentes, fruto do sacrifício propiciado pelo próprio Deus [4].

Eu não quero essa roupa velha! Cansei desta túnica mosaica de milênios atrás. As folhas de figueira perecem, murcham com o tempo, e minha vergonha permanece lá. Portanto, já não encobrirei minhas transgressões, nem me esconderei em uma capa rota de justiça morta; pano imundo do qual se vestem os hipócritas dissimulando que tudo está bem. Reconheço-me tal como sou: Nascido em pecado, e a menos que haja um milagre em mim, eternamente pecador.

Vestir-se do novo homem é reconhecer-se ainda nu. Sem obras, sem dons e sem justiça. Aceito-me ridículo e errante, e clamo a Deus por perdão. E Ele, conforme sua Palavra Eterna que não pode mentir, me cobre de uma justiça verdadeira, e confere a mim – o maior dos pecadores – uma santidade posicional e perfeita [5].

O novo homem é uma nova criação. Ele descansou, mas não para sempre. Sim, “o pai trabalha até agora” [6], transformando pecadores em santos, e em escala industrial!

Nasci nu. E meus pais, a sociedade e a religião me ensinaram a cobrir minhas transgressões, dando sempre a aparência de ser perfeito e politicamente correto. Hoje, desnudo-me ante Ti com reverência e temor, mas com a confiança filial de que não deixarás meu corpo exposto ao relento. Tal como Adão no Éden, hei de ser coberto e protegido no teu sacrifício.

Obrigado, Senhor, por permitir-me acercar nu à tua presença, encontrando em ti a minha justificação. Jamais estive tão santo! Jamais me conheci tão pecador!

Oh, mistério da graça… Maior (bem maior!) que o meu pecar!

Notas:

1. Efésios 4.22, Cl 3.9; 2. Cl 2.22; 3. Gn 3.7; 4. Gn 3.21; 5. Ef 4.24; 6. Jo 5.17

À Karl Barth, (herege) por meio do qual conheci a graça dialética e o paradoxo da fé.

Solilóquios (1)

11 out

Leonardo: Porque te abates, ó minha alma, e porque te perturbas dentro de mim?

Alma: Tenho visto a injustiça dos homens que se dizem santos. Percebi que eles dicotomizam a redenção, aplicando-a apenas à alma, excluindo-se completamente do labor social, das questões políticas e civis.

Sim, estou abatida, pois percebo que o sal apenas tempera as catedrais. O que acontece fora delas não importa; não é a jurisdição dos santos. O Eterno é Deus dos crentes, e já não ama o mundo.

Me envergonho da religião e sinto pena dos mártires e reformadores. Me abato e me perturbo porque eles, caso estivessem vivos, pranteariam pelos evangélicos tal como Jesus chorou pela cidade de Jerusalém.

Estou extenuada e triste, porque sou uma voz rouca, um eco sem força a clamar por justiça social, por relevância teológica, por graça, amor e perdão, e a igreja brasileira faz ouvidos de mercador…

Leonardo: Oh, alma minha! Levanta deste teu luto! Ilusão tua crer que a igreja é representada por este povo mudo e covarde. A igreja de Cristo é um corpo e um mistério! [1]. Ela é um projeto soberano de Deus, e seus planos jamais falham. A verdadeira igreja está no mundo militando, mudando o curso das coisas. As vezes é inexpressiva e tem pouca força, mas é atuante e não o negará jamais!

Espera nEle, alma minha… Espera nEle!

***

Notas:

  1. Ef 4.15-16, Ef 5.32

Entre anjos e bestas feras

10 out

Segundo o sabio Sócrates, o caminho da sabedoria passa pelo auto-conhecimento. “Conhece-te a ti mesmo”, reza o axioma. Contudo, nenhuma outra tarefa pode ser mais difícil que esta. Quem sou eu?

Crê Marx que sou um conjunto de sensações e uma mente individual. Para Goethe sou uma criatura sombria que não sabe de onde vem, nem para onde vai. Em Vitor Hugo, sou um fantasma errante, que passa pelo mundo e não deixa sequer uma sombra no muro.

Mas quem sou eu? Sou a encarnação da imperfeição, cuja essência foi deturpada, começando uma metamorfose de lagrimas a dançar com a morte. Sou um ser caído a depender a cada dia da graça de Deus; alguém que ora e crê com toda a sua foça na eficácia dessa graça, pois é ela a minha única esperança de salvação. Sou ainda infiel, mas Ele permanece fiel!

Definitivamente não sou bom. E para ser honesto, nem quero ser. Tenho medo dessa falsa bondade pseudo-religiosa que faz com que os homens vejam os outros como seus inferiores, ao ponto de desprezar àqueles com quem Cristo compartilhava suas refeições e seus momentos alegres, debaixo da escusa de não se contaminarem. Não, senhores: Essa bondade eu desprezo! Cubram-se outros com esse manto de hipocrisia. Prefiro dar a conhecer a minha natureza humana, e em minha humanidade e imperfeição aguardar a suprema redenção que me trará Cristo.

Blaise Pascal disse que “o homem não é anjo e nem animal”, e que “aqueles que pretendem ser anjos, acabam se convertendo em animais”. Eu não sou anjo! No máximo um de asas desplumadas e auréolas tortas. E se você quer saber, o pseudo-protestantismo brasileiro está assim decadente, porque os homens um dia quiseram ser anjos. Eles quiseram ser deuses, e se converteram em animais. Deus me livre de ser tão santo, ou tão puro. Deus me livre de ser um anjo. Prefiro ser um homem que depende totalmente da justiça de Deus.

Disse Soren Kierkgaard: “O homem nasce e vive em pecado, nada podendo fazer a seu próprio favor, a não ser prejudicar-se”. Sim, esse sou eu! Tão sujo que posso reconhecer o valor do sangue de Cristo para lavar-me; tão pecador que sei que nada posso fazer para salvar-me; tão morto que não tive forças para gritar e pedir por auxílio; e tão perdido que sou capaz de devolver gratidão ao Deus que me achou.

E mesmo após ser conquistado e vencido pela graça, não posso arrogar perfeição: pois essa mesma graça me faz enxergar com mais luz o meu pecado e o intransponível abismo entre eu e o meu Salvador. Há apenas uma coisa que é capaz de ligar extremos como o céu e terra, o santo e o profano, meu Senhor e eu: A cruz de Cristo. É ela a única esperança que me resta, a minha sorte e porção no mundo, e a única fonte capaz de regenerar minha natureza humana.

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